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sábado, 22 de janeiro de 2011

Mestres

Estava refletindo sobre aqueles que podemos considerar mestres em determinadas áreas de conhecimento e percebi o que todos têm em comum, isto talvez explique como eles tornaram-se grandes. Sejam naqueles reconhecidos historicamente, desde Sun Tzu, passando por Freud e Nietzsche, até aqueles com quem tive contato pessoalmente e, mesmo que não seja unânime, são considerados ótimos mestres por mim e por vários colegas, como Botomé e Tuto.

O fato que me veio à luz, é que aparentemente todos foram/são extremistas, como se alcançar tal nível de compreensão e elucidação de seu respectivo logos, exija um preço à altura: resignar-se e libertar-se de qualquer conhecimento, atitude e até comportamento que siga alguma outra linha. Como um monge que, para se tornar iluminado, deve passar por uma provação reclusando-se de tudo aquilo que já foi construído ou esculpido pelo homem, em um ambiente deserto, vivendo e interagindo apenas com aquilo que é essencial para mantê-lo vivo. Assim, ele finalmente poderá encontrar a essência de sua fé e dominar sua filosofia. Ao voltar para sua terra ele já se tornou divino, mas por esse motivo, é obrigado a se privar de tudo aquilo que lhe é impuro.

Então se tornar um grande mestre, é se tornar um arauto de determinada esfera particular de conhecimento, incorporando tudo que ela representa e sendo assim reconhecido por todos. Conseqüentemente, lhe é cobrado que apenas responda segundo sua disciplina de especialidade como um representante de tal conhecimento, não podendo utilizar de quaisquer recursos que sua disciplina não aborde, lhe é permitido, no máximo, declarar que tal questão não diz respeito à sua especialização. Podemos usar como metáfora o oriente antigo: quando um mestre em karate era desafiado por um espadachim, caberia a ele defender sua escola com as mãos vazias, independente da disponibilidade de alguma arma.

É evidente que um mestre poderia incorporar a personalidade de sua escola apenas enquanto necessário, porém, a expectativa social é forte e o condiciona a se comportar desta forma, afinal é aquela persona que é reconhecida como alguém de valor, que os outros vêem, ao se dirigir para este mestre. A sociedade não tem interesse nas características que não condizem com o logos dominado por aquela pessoa, desumanizando-a.

Portanto, para adquirir determinada maestria, parece necessário que haja um extremismo. Não acredito que haja alguma área de conhecimento na qual eu me identifique a tal nível, para pagar este sacrifício de abandonar todos meus outros preceitos e filosofias. Parece que a genialidade é tão raramente alcançada, pela recusa da maioria das pessoas cultas, de se sujeitar totalmente a determinado conhecimento. Fica claro o motivo pelo qual todas as personalidades que tiveram tamanho reconhecimento pelo domínio de alguma disciplina, estão longe de serem consideradas um exemplo como pessoas, freqüentemente tendo comportamentos polêmicos e não-ideais. E ainda adquirindo perturbações à sua psiquê.

Devemos muito a eles, que sacrificaram muito de seu livre arbítrio e bem estar psicológico para explorar profundamente determinados saberes, colhendo e produzindo um farto conjunto de conhecimentos, ferramentas e tecnologia. Permitindo a todos seus sucessores trilhar, com maior facilidade e conforto, os caminhos que foram abertos por estes bravos desbravadores.